O CRISTÃO E A HISTÓRIA
 GORDON H. CLARK


Por causa da óbvia condição do nosso mundo, mais e mais pessoas ficam se perguntando sobre o futuro da nossa nação, da nossa civilização e do nosso modo de vida. A membresia da igreja ficou estarrecida com as estatísticas fornecidas pelo FBI: quinze milhões de revistas eróticas são lidas mensalmente; há mais garçonetes do que estudantes universitárias; um divórcio para cada cinco casamentos; sessenta suicídios todos os dias; um assassinato à cada 40 minutos; a maior parcela de criminosos têm apenas dezessete anos de idade. Os membros que não pertencem à igreja podem prestar mais atenção ao The Decline of West [O Declínio do Ocidente], de Oswald Spengler, e A Study of History [Um Estudo da História] de Arnold Toynbee. A popularidade deste assunto pode ser avaliada pelo fato de que a revista semanal, Life, tida por muitos como uma revista acadêmica, publicou um artigo elaborado de Arnold Toynbee. Tanto Spengler quanto Toynbee fazem a pergunta: “A história se repete?” E ambos respondem afirmativamente. Existem leis históricas que descrevem o curso de todas as civilizações desde o nascimento até a sua dissolução. E Toynbee é apenas um pouco mais otimista do que Spengler sobre o futuro da cultura ocidental.

A História Possui Algum Significado?

Seria extremamente interessante estudar os detalhes de Spengler e Toynbee. Mesmo naquilo em que nós podemos cordialmente discordar deles, ainda acharemos os seus pontos de vista altamente estimulantes. Mas, para o nosso presente propósito, será mais lucrativo enfatizar algum problema. Ao invés de delinear a semelhança do desenvolvimento entre as várias civilizações, ou de concentrar a atenção na morfologia da história, ou de perguntar simplesmente se a história se repete; podemos fazer uma pergunta melhor: “A história possui algum significado?”

Suponhamos, juntamente com Spengler, que cada sociedade percorre o seu próprio curso vital, e que disso se seguem outras sociedades. Então, e daí? Existe algum significado nisso? Suponha algo bastante semelhante, com Toynbee. Uma sociedade gera outra num segundo e depois morre. Isso não seria a mesma coisa que uma geração de mosquitos gerar outra geração de mosquitos, e depois outra e outra? Qual é a finalidade de tudo isso? Karl Marx e Bertrand Russell dizem que a finalidade é a morte cósmica. A distribuição da energia no universo será igualada, o planeta congelará, a vida se extinguirá e os átomos eternos irão se revirar sem se importar com o breve acidente que é a vida humana.

Os estoicos na antiguidade, e Nietzsche no século passado, foram mais otimistas. Eles consideravam que depois de a história mundial se completar, o show será reiniciado novamente. Como num carretel de filmes, tudo acontecerá novamente como aconteceu na última vez. E assim por diante, em ciclos intermináveis. O filme não se esgotará; e sempre continuará o mesmo.

Mas que tipo de “otimismo” é esse? Ou seria pessimismo? Nem na visão de Russell, nem mesmo Nietzsche faz a história ter algum significado. Se nos dissolvemos em átomos para que não haja mais esperanças, medos, alegrias e tristezas humanas, ou se guerreamos na Primeira, na Segunda e na Terceira Guerra Mundial, apenas para termos que guerreá-las novamente da próxima vez, em ambos os casos, haverá apenas uma resposta negativa para a pergunta: “A história possui algum significado?” Tanto a morte cómica quanto os ciclos cósmicos são igualmente pouco inspiradores. Até aqui, parece que o pessimismo é a última palavra sobre o assunto. Pode ser que a raça humana exista apenas para encontrar uma frustração extrema e completa. Pode ser que a história seja desprovida de qualquer significado.


Mas, antes de adotarmos esta visão sombria das coisas, não seria sábio perguntar se por acaso não existem outras teorias? Não temos ao menos o direito de perguntar o que pode estar implícito numa teoria que confere alguma importância à história? Como podemos saber se a história e a vida humana possuem algum significado e valor, a menos que consideremos a visão mais esperançosa e a mais pessimista? Por conseguinte, perguntamos: “o que deveria ser verdadeiro se a história e a vida possuíssem algum significado?”

A História Possui Algum Objetivo?

As teorias pessimistas privaram a vida humana do significado, negando que a história possua algum objetivo. Nas teorias anteriormente mencionadas, a raça humana estaria condenada à extinção e esquecimento, ou então estaria condenada a repetir e repetir os acontecimentos deste mundo em ciclos sem fim. Inversamente, entretanto, se algum significado deve ser atribuído à vida humana, então a extinção e o esquecimento não serão o fim. Nem os ciclos repetitivos. A importância requer algum propósito para o qual a história ocorra. Uma meta ou objetivo é o pré-requisito para atribuir algum valor à vida. Um ciclo pode ter um começo e um fim; mas uma série infinita de ciclos não têm fim, e permanece sem objetivo. Um objetivo é algo final, algo melhor, algo permanente. Mudança, mudança constante e movimento sem objetivo, não é algo proposital. Para que a mudança seja proposital, deve haver alguma direção. E uma direção é determinada por algum fim ou objetivo. O progresso, igualmente, só é possível quando existe algum objetivo. Muitas pessoas acreditam que a humanidade está avançando; elas acreditam que hoje nós somos melhores do que os nossos antepassados. A ideia de progresso foi, e ainda é, muito popular. No entanto, neste momento, não estou afirmando o progresso como um fato; e certamente não aprovo a noção popular daquilo que o progresso consiste. Estou apenas apontando que, se existe algum progresso de qualquer tipo, deve haver algum objetivo para o qual possamos progredir.

O objetivo não pode ser apenas o fim de mais um ciclo que deverá ser repetido novamente. Um verdadeiro objetivo é final, completo e permanente. Consequentemente, para que seja concedido algum significado à história, algo deve acontecer de uma vez por todas. O fim deve ocorrer uma vez e durar. E se o fim pode ocorrer, de uma vez, também segue que os vários meios para esse fim podem ocorrer, de uma vez. Todo o processo histórico deve consistir em uma série de eventos únicos que inauguraram o ponto culminante. Pode haver semelhanças entre os meios. Uma civilização pode passar por estágios que são semelhantes aos estágios de outra civilização. Nesse sentido, a história pode parecer se repetir. O livro dos Juízes mostra como a história se repetiu várias vezes. Quando os judeus venciam eles abandonavam a Deus, depois, eles eram derrotados por seus inimigos e, então, um novo líder os convocava ao arrependimento e Deus os restaurava novamente, para lhes favorecer e livrar da opressão dos seus inimigos. Mas, Débora viveu apenas uma vez, e Gideão viveu apenas uma vez, e Sansão viveu apenas uma vez, e Cristo morreu de uma vez por todas.

Cristianismo e História

O interesse secular na filosofia da história é claramente um fenômeno moderno. Nenhum dos filósofos gregos ao longo de um período de mil anos fizeram disso algum tópico de estudo. Alguns deles, como Platão e Aristóteles, estavam interessados em teorias da política, e no delineamento do desenvolvimento de instituições políticas pelas quais prestavam atenção aos antecedentes históricos. Contudo, eles não tinham nenhuma teoria de história. Em contraste com essa negligência secular da história, o cristianismo sempre foi fortemente histórico. O cristianismo é histórico, não apenas no sentido de possuir uma história, mas no sentido de possuir uma teoria da história. Ele encontra significado em eventos históricos — de fato, encontra o centro de todo significado na história. Alguns sistemas de filosofia estão baseados em estudos de física ou ciência; ocasionalmente eles afirmam que o fato histórico não possui importância e, especialmente, é algo sem importância para a religião. Mas, o sistema cristão faz da história a sua pedra de toque. Na história, a evidência é clara e adequada, e na história o significado de todo o universo é encontrado. O menos importante das várias considerações importantes é que o cristianismo vê a história passada como uma fonte de instrução para as gerações presentes. Os eventos do Antigo Testamento têm como objetivo ensinar aos filhos de Deus as lições espirituais que eles precisam aprender. Um referência foi feita ao livro dos Juízes. Os eventos desse livro foram delineados para ensinar a eles a obediência que Deus requer e a punição pela desobediência. Eles não aprenderam muito bem. E nem mesmo o amargo capim babilônico conseguiu finalmente abolir de uma vez a idolatria. Porém, isso não é tudo. Os acontecimentos do Antigo Testamento não são apenas concebidos para ensinar os judeus; eles são projetados para nossa instrução também. Discorrendo acerca dos eventos que ocorreram durante a jornada no deserto, em 1 Coríntios 10:6,11 Paulo nos diz que esses eventos servem de exemplos para nós e que eles foram escritos para a nossa admoestação. Em Gálatas 4:22, Paulo mostra como as vidas de Agar e de Sara exemplificam o Evangelho. E a epístola aos Hebreus está permeada pela noção de que a história do Antigo Testamento cedeu uma mensagem do Evangelho de forma elementar.

A Vida Cristã

Embora seja de grande importância prática saber que a história possui uma função instrutiva, contudo, isso ainda é menos importante do que outro assunto. A história poderia ser uma série de eventos articulados e ainda assim ser instrutiva. Mas, longe de ser desarticulada, a história é um processo tão planejado, que o início dos eventos prepara caminho para os eventos posteriores. Particularmente, os acontecimentos do Antigo Testamento, como o chamado de Abraão, a separação dos judeus e o estabelecimento da Teocracia, prepararam caminho para a vinda do Messias. A tipologia ritual também indica isso, embora obscuramente. As profecias explícitas estabelecem fatos que não deixam nenhuma dúvida. Dois séculos antes de Ciro nascer, um profeta mencionou ele pelo nome e previu que ele e os Persas reconstruíram Jerusalém. Quase cinco séculos Antes que Cristo nascesse, um profeta declarou que definitivamente que o Messias viria dentro de 490 anos. E, na plenitude dos tempos, Cristo veio. E o fato de que Ele veio, que Ele foi crucificado, e que Ele subiu do túmulo, leva à outro fato, e ainda mais importante, sobre a história. É talvez o fato mais importante sobre a história. É que a história é o cenário da atividade de Deus. O significado da história, de acordo com a visão cristã, não é que os homens apenas podem aprender uma ou duas lições espirituais. Não é tão somente que os eventos prévios se preparam para os eventos posteriores. E sim, que a história é significativa porque, na história, Deus age.

Não é exagero dizer que a encarnação de Cristo, e especialmente a sua morte e ressurreição são os eventos mais importante da história. Contudo, embora estes sejam os eventos mais importantes, eles não constituem por si mesmos a filosofia cristã da história. Estes eventos mostram que o cristianismo atribui significado à história, mas uma declaração a respeito da expiação não é a formulação mais geral da visão cristã da história. A Bíblia tem muito mais a dizer, e para ter uma compreensão mais abrangente, é preciso coletar primeiramente uma série de declarações seus e, em seguida, resumi-las se possível. 

Seria impossível em um curto espaço de tempo compilar qualquer grande número de passagens relevantes, mas mesmo numa escassa seleção se pode mostrar o tenor geral do ensino bíblico:

Daniel 2:21: “E ele [Deus] muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis; ele dá sabedoria aos sábios e conhecimento aos entendidos”

Daniel 4:35: “E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele [Deus] opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?”

Atos 17:26: “E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação”


Efésios 1:11: “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”

Estes versículos em conjunto com muitas outras passagens podem resumir com precisão as palavras do Breve Catecismo: “... Deus... predestinou tudo o que acontece” (P.7).

A história ocorre estritamente de acordo com o decreto eterno de Deus. Ele planejou isso; ele vê o fim do início; e os meios que ele usa não são usados em vão — eles devem realizar o que agrada a Deus e eles prosperarão naquilo que Deus os enviar. O controle perfeito de Deus sobre a história é uma doutrina particularmente apreciada pelos presbiterianos. Isto é uma doutrina essencial do calvinismo. Na Confissão de Fé de Westminster, ele se apresenta sob o título “Do Eterno Decreto de Deus”. Em termos semelhantes ao Breve Catecismo, a Confissão começa com a sentença “Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece...” (III, 1). Mas, popularmente, esta doutrina é conhecida sob o nome de Predestinação; e permeia todo sistema calvinista, e eu estou disposto a dizer: permeia Bíblia. A menos que Deus controle toda história, não haverá algo como a Providência. A menos que Deus controle toda história, não poderíamos ter bases firmes para garantir a salvação. Estamos ao ponto de notar que essas formas de cristianismos que negam a Predestinação são incapazes de dar aos seus adeptos qualquer garantia que eles serão salvos. Eles devem dizer que se uma pessoa morrer em estado de graça, ela será recebida no Céu, mas, infelizmente, não poderemos contar com Deus para preservar uma pessoa nessa graça. Porém, os presbiterianos dizem, e a Bíblia diz: 

João 10:28: “E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão”

Filipenses 1:6: “Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” 


1 Pedro 1:5: “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo”

A garantia da Salvação e da Predestinação sobre a qual a segurança dos crentes se baseia são doutrinas abençoadas, e não vamos desistir delas. Pelo contrário, nos alegramos de que nós mesmos, e toda a história conosco, estejamos sob o controle onipotente de Deus.

Para o olhar não iluminado pela revelação divina, o curso atual dos acontecimentos parece um tanto ameaçador. Até mesmo os historiadores mais otimistas acreditam que os dias sombrios são muito mais propensos do que dias de paz. Os historiadores menos otimistas podem até admitir que a Terceira Guerra Mundial e a obliteração da civilização são inevitáveis. Não é de se admirar que as pessoas sóbrias sejam perturbadas. Porém, o cristão possui uma firme esperança da qual outros podem não compartilhar. Onde outros podem ver apenas o perigo de uma guerra que envolverá árabes, judeus, russos e americanos, pensamos que podemos ver o cumprimento de uma antiga profecia. Nós pensamos que podemos ver a mão de Deus na história hoje, como tem sido vista nos últimos 1900 anos. Quanto tempo demorará para os Judeus se reunirem na Palestina, ou para o sofrimentos deles e de todo o mundo passar, ou quão próximo um grande evento profético ocorrerá, ninguém sabe. Entretanto, nós vemos claramente que a história está muito perto da sua culminação. Lembre-se do argumento anterior sobre o significado da história. A história é significativa quando possui um objetivo. E o cristianismo nos revela qual é o objetivo. É a consumação que será efetuada por Cristo no seu Advento. Qualquer que seja o futuro imediato, o Senhor Deus onipotente reina, e “de repente virá ao seu templo o Senhor... mas quem suportará o dia da sua vinda? E quem subsistirá, quando ele aparecer? Porque ele será como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros. E assentar-se-á como fundidor e purificador de prata; e purificará os filhos de Levi, e os refinará como ouro e como prata; então ao Senhor trarão oferta em justiça” (Malaquias 3:1-3).


De fato isso acontecerá, embora não saibamos quais serão os eventos que o precedem. Não se exige a sobrevivência da nossa civilização ou da nossa nação. Deus determinou os tempos previamente e os limites da nossa habitação. Mas, à que horas exatamente Deus preconizou a cultura ocidental, nenhum homem sabe. No entanto, sabemos que nenhuma nação pode continuar a existir além do tempo, pois é Deus que muda os tempos e as estações, e remove os reis e estabelece os reis. A história, portanto, continua em seu caminho predeterminado, e ela vai para o fim catastrófico do qual Deus planejou. Cristo virá nas nuvens do Céu “com labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho” (2 Tessalonicenses 1:8).

Quando isso se dará, ninguém sabe, nem mesmo os anjos no Céu. Alguns trezentos bilhões de dólares de endividamento e a crescente tirania podem indicar o fim da civilização americana, mas isso não indica necessariamente o fim do mundo. Existe a possibilidade de um grande protestante reformado surgir na América do Sul, ou a evangelização nacional surgir da China, inaugurando uma ótima era para Igreja de Cristo e uma nova cultura para o mundo. Não tenho motivos para supor que tal coisa acontecerá, mas quem pode dizer que não? Poderia ser o plano de Deus que a civilização mundial, começando pelo Rio Eufrates, tivesse que percorrer todo o globo terrestre até se extinguir e mais uma vez retorna à sua terra de origem? Um pensamento ocioso? Talvez. Mas, são pensamentos que evitam o dogmatismo hermético sobre o futuro. Deixe-nos agir não em suposições, mas em conhecimento, e isto nós sabemos: “E ouvireis de guerras e de rumores de guerras... se levantará nação contra nação... e haverá fome... e surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos... e este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo...” (Mateus 24:6-14). “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt. 28:19-20).

Deus se move de maneira misteriosa
Para Suas maravilhas executar.
Ele planta os Seus passos no Mar
E passeia na tempestade.

A cega incredulidade por certo erra
E esquadrinha Suas obras em vão.
Deus é o seu próprio Intérprete
E ele se esclarecerá.


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Extraído de:
http://gordonhclark.reformed.info/the-christian-and-history-by-gordon-h-clark/

Traduzido por: Dione Cândido Jr. 

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