O ARGUMENTO DE GORDON H. CLARK PARA A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA
 ROBERT L. REYMOND


Gordon H. Clark fez os seguintes argumentos no primeiro capítulo de God's Hammer: The Bible and Its Critics [O Martelo de Deus: A Bíblia e os seus Críticos] para se acreditar que a Bíblia é a Palavra de Deus:


> A Bíblia reivindica ser a Palavra de Deus;
> Todas as explicações alternativas concernentes a reivindicação da Bíblia como Palavra de Deus, a parte da sua própria veracidade, são insustentáveis;
> Todas as tentativas em refutar a reivindicação da Bíblia como Palavra de Deus, opondo-se contra ela alegados erros específicos, falharam;
> Portanto, nós podemos acreditar que a Bíblia é a Palavra de Deus.

Essas quatro declarações requerem alguma elucidação, então vamos analisa-las, uma por uma.

A Bíblia reivindica ser a Palavra de Deus

Clark observou que isso não se tratava de um argumento circular; seria simplesmente injustificado reivindicar que a Bíblia é a Palavra de Deus se ela não reivindicasse ser isso ou se ela negasse que é a Palavra de Deus. Clark escreveu: “O que a Bíblia diz é uma parte essencial do argumento. O cristão está bem dentro dos limites da lógica ao insistir que a primeira razão para acreditar na inspiração da Bíblia é que ela faz esta afirmação[1] [2].

Todas as explicações alternativas concernentes a reivindicação da Bíblia como Palavra de Deus, a parte da sua própria veracidade, são insustentáveis

Considere as três seguintes explicações alternativas. A primeira explicação alternativa é de que a reivindicação da Bíblia como Palavra de Deus é somente ocasional e acidental e que, portanto, isto não deve ser levado a sério. Porém, uma investigação dos dados bíblicos revela que tal reivindicação é bastante persuasiva e crucial para o restante da Escritura[3]. Desse modo, a reivindicação da Bíblia não é acidental e nem pode ser trivializada ou ignorada. Em mais de 380 vezes no Antigo Testamento os escritores introduzem as suas mensagens com tais declarações como “A boca do Senhor disse isto”, “Assim diz o Senhor”, “O Senhor falou”, “Ouçam a Palavra do Senhor”, “Assim foi que me revelou o Senhor” e “A Palavra do Senhor veio a mim, dizendo” (veja também o emprego de Lucas desta terminologia do Antigo Testamento em Lc.3:3: “A Palavra do Senhor veio a João).

A segunda explicação alternativa diz que a reivindicação da Bíblia como Palavra de Deus é apenas uma entre muitas outras reivindicações quaisquer feitas pelos escritores bíblicos, o que acaba por promover uma razão para o ceticismo sobre a sua credibilidade e, portanto, a reivindicação sob a discussão carece de uma credibilidade a priori. Mas, novamente, uma investigação sobre esses escritores indica o oposto: os escritores bíblicos estavam bastante convencidos sobre outros assuntos e também fizeram esta reivindicação com total consciência do que estavam dizendo; assim, a falsidade da reivindicação é improvável a priori.

A terceira explicação alternativa é de que, embora os escritores bíblicos possam ter feito reivindicações de que a Bíblia é a Palavra de Deus, o mais importante personagem da Bíblia, Jesus, não fez isso, e se tivesse feito, ele apenas estaria se acomodando à predominante visão errônea dos escritores bíblicos que fizeram isso para obter uma audiência para os seus ensinamentos. Mas, outra vez de novo – e eu expus a evidência para isto no capítulo dois deste livro – Jesus fez tal reivindicação e ele a fez de forma penetrante e com plena consciência de si mesmo quando o fez[4]. E não há qualquer razão para se pensar que ele tenha feito isso meramente como uma acomodação à visão errônea” dos escritores bíblicos que fizeram isso para obter uma audiência para os seus ensinamentos, pois sabemos que ele, por várias vezes, contradisse as visões contemporâneas que ele julgou serem enganosas. E em nenhum lugar nós lemos que Jesus avisou aos seus seguidores em particular que as suas declarações sobre a Escritura eram apenas uma acomodação à suposta visão errônea mantida pelos escritores bíblicos. Ademais, se a reivindicação dos escritores bíblicos era falsa, e se Jesus a tivesse apoiado,


tal Jesus não seria mais digno de uma atribuição de deidade do que o Jesus que estava confuso com a confiabilidade da Bíblia. Para um Jesus que deixa o fim justificar os meios, que permite que os seus seguidores se enganem numa questão religiosa tão vital (a extensão da confiabilidade revelacional) e que promove confusão e conflito desnecessário na história subsequente da igreja por meio de seus equívocos, dificilmente se encaixa um modelo divino para a emulação ética do homem[5].

No entanto, em todos os outros lugares, a credibilidade de Jesus se mostra impecável e, desse modo, a credibilidade impecável de Jesus, de qualquer forma, fornece à sua reivindicação sobre a Bíblia uma credibilidade a priori.

A quarta alternativa é aquela que os seguidores de Bultmann advogam, a saber, de que o sobrenaturalismo da Bíblia é simplesmente mitológico. Demonstraremos a sua falsidade nos próximos quatro capítulos. Assim, se estas quatro explicações alternativas são insustentáveis, então, segue-se que a reivindicação dos escritores da Bíblia permanece irrefutável e pode ser assumida.

Todas as tentativas em refutar a reivindicação da Bíblia como Palavra de Deus, opondo-se contra seus alegados erros específicos, falharam

A lista dos supostos erros da Bíblia é embaraçosamente arcaica. Mas, ela tem se mostrado estar equivocada de novo e de novo. John W. Harley em Alleged Discrepancies of the Bible [Supostas Discrepâncias da Bíblia] e Gleason L. Archer em Encyclopedia of Biblical Difficulties [Enciclopédia de Dificuldades Bíblicas] têm demonstrado que nenhuma das supostas alegações de erro possui algum mérito real. Eu me lembro de um poema de John Clifford que captura o fato da incontestabilidade bíblica dessa maneira:

Eu estava parado na última tarde em frente a porta do ferreiro,
E ouvi o badalar da bigorna, o badalar do entardecer,
E lá olhando, eu vi sobre o chão
Martelos antigos, usados há anos para bater.
Quantas bigornas você já teve, eu disse,
“Para ter usado e desgastado todos estes martelos assim?
“Apenas uma”, ele me respondeu. E com os olhos brilhando, me disse:
“É a bigorna que desgasta os martelos, você sabe”.
E então, eu pensei, assim é com a bigorna da Palavra de Deus.
Durante séculos a martelada dos céticos foi ouvida,
Mas, embora o som das marteladas tenha sido ouvido,
A bigorna permaneceu intacta. Os martelos desapareceram.


Eu digo isso carinhosamente, é claro, mas por um pouco não desejo que os críticos da Bíblia nos apontem um novo erro, se o motivo disso não fosse apenas querer dar aos defensores da Bíblia algo para fazer.

Portanto, nós podemos acreditar que a Bíblia é a Palavra de Deus

Não perceber a força deste argumento é algo inexcusável. Ele não é circular, aborda as objeções dos críticos, e é um argumento tão simples que até mesmo um aluno do ensino médio poderia acompanha-lo. Clark assevera, entretanto, que enquanto o Espírito Santo não iluminar a mente de uma pessoa esta não poderá e não irá crer que a Bíblia é a Palavra de Deus[6] [7].



Notas:
[1] CLARK, Gordon H. God's Hammer: The Bible and Its Critics. New Mexico: The Trinity Foundation, 1982, p.3.
[2] Nota do Tradutor: Adicionalmente, deve ser ressaltado que, segundo Gordon H. Clark, também não conseguimos demonstrar que a Bíblia é a Palavra de Deus além da própria reivindicação que ela faz de si mesma como sendo a Palavra de Deus, isto é, além de uma maneira dogmática. Como exemplo, Clark afirmou que “para mostrar que a Bíblia é a Palavra de Deus, a Confissão de Westminster cita como argumentos o testemunho da igreja, a sublimidade da matéria, a eficácia da doutrina, a majestade do estilo, a harmonia de todas as partes e muitas outras excelências incomparáveis. Todavia essas qualidades não são suficientes para produzirem a plena persuasão e certeza da verdade infalível e da autoridade divina” (Uma Introdução à Filosofia Cristã. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2013, p.68).
[3] CLARK, Gordon H. God's Hammer: The Bible and Its Critics. New Mexico: The Trinity Foundation, 1982, p.3-13.
[4] A segunda e a terceira alternativas são tratadas por Clark em God's Hammer, pp.13-16.
[5] John Warwick Montgomery, “Biblical Inerrancy: What is at Stake” em God's Inerrant Word [A Palavra Inerrante de Deus], editado por John Warwick Montgomery (Minneapolis: Bethany, 1974), p.29.
[6] Clark assevera isto em God's Hammer, pp.16-23.
[7] Nota do Tradutor: Clark utiliza a mesma resposta em sua obra Três Tipos de Filosofia Religiosa, novamente lidando com a questão do porquê alguém aceita a reivindicação de que a Bíblia é a Palavra de Deus ao invés de aceitar a reivindicação de qualquer outro livro que afirma o mesmo. Após desenvolver a questão em mais detalhes, ele diz: Se agora uma pessoa quer a resposta básica para a questão: 'Por que um homem aceita o Corão e outro a Bíblia?' Ei-la: Deus faz com que se acredite” (Editora Monergismo, 2013, p.170).


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Extraído de:
REYMOND, Robert L. Faith's Reasons For Believing. Christian Focus Publications Ltd., Geanies House, Fearn, Ross-shire: 2008, p.92-95.

Traduzido por: Dione Cândido Jr.

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