REVIEWS: HILL E BATES SOBRE A DOUTRINA DA TRINDADE
 SCOTT R. SWAIN


HILL, WESLEY. Paul and the Trinity: Persons, Relations and the Pauline Letters. Grand Rapids: Eerdmans, 2015, 210pp.

BATES, Matthew W. The Birth of the Trinity: Jesus, God, and Spirit in the New Testament and Early Christian Interpretations of the Old Testament. Oxford: Oxford University Press, 2015, 234pp.

Os melhores trabalhos recentes sobre a doutrina da Trindade vieram na forma de monografias teológicas, sistemáticas e históricas, artigos e ensaios. Tais obras atendem bem a tarefa da teologia trinitária, apontando recursos para promover e recuperar vias construtivas de reflexão e argumentação. Matthew Bates e Wesley Hill oferecem uma contribuição distintiva entre as demais obras recentes e enriquecedoras sobre a Trindade em forma de dois livros, dedicados às fontes exegéticas e hermenêuticas da doutrina trinitária. Do ponto de vista formal, ambos os livros compartilham um compromisso metodológico com a interpretação teológica da Escritura, embora de uma maneira que abrace as literaturas, as questões e as considerações de abordagens críticas para os estudos bíblicos. Do ponto de vista material, ambos os livros envolvem debates contemporâneos sobre o status e a forma do monoteísmo e da cristologia no judaísmo do Segundo Templo e do cristianismo primitivo, embora, por vezes, os autores possam argumentar que as categorias empregadas nesses debates são insuficientes para expressar exegeticamente o assunto teológico da Bíblia. De acordo com os dois autores, o progresso na exegese teológica da Sagrada Escritura e, portanto, na teologia trinitária, pode ser feito apropriando-se de categorias e práticas interpretativas regularmente negligenciadas pela erudição bíblica moderna, porém centrais a certos traços da tradição teológica cristã.

Paul and the Trinity: Persons, Relations and the Pauline Letters [Paulo e a Trindade: as Pessoas, as Relações e as Cartas Paulinas] de Wesley Hill envolve debates contemporâneos em torno da fala paulina de Deus. Ele argumenta que o binário da cristologia alta e baixa, embora seja algo comum em tais debates, é inadequado para fazer jus a linguagem de Paulo sobre Deus, sobre Cristo e sobre o Espírito. No lugar desse binário, Hill tenta recuperar a tradicional categoria trinitária de relação. Ao fazê-lo, ele evita os apelos vagos e impressionistas da relacionalidade que permeiam como fluxo familiar no pensamento trinitário moderno e, por meio de uma interação crítica com recentes erudições envolvidas com a teologia pró-Niceia e, em particular, com a apropriação tomista, refina um conceito de relação que lhe permite considerar dois registros do discurso paulino sobre Deus (isto é, redobradamente” [redoublement]): o discurso que indica o que Deus, Cristo e o Espírito mantêm em comum sendo o único Deus de Israel e o discurso no qual eles são distinguidos um do outro através da relação. Consciente da ameaça de anacronismo na interpretação teológica das Escrituras, Hill avalia seu refinado conceito de relação na exegese de passagens-chave incontestáveis nas cartas paulinas (Fp.2:6-11; 1Co.8:6, 15:24-8, entre muitas outras). Da sua análise exegética ele conclui que tais textos são mapeados mais fielmente por estes registros duplos do discurso paulino ao invés das categorias de cristologia alta ou baixa. De acordo com a análise de Hill, as relações entre Deus, Cristo e o Espírito são relações mútuas e assimetricamente ordenadas que não comprometem a união ou unidade fundamental que se obtém entre elas (p. 81).

No seu livro The Birth of the Trinity: Jesus, God, and Spirit in the New Testament and Early Christian Interpretations of the Old Testament [O Nascimento da Trindade: Jesus, Deus e o Espírito no Novo Testamento e nas Interpretações Cristãs Primitivas do Antigo Testamento] de Matthew W. Battes aborda sobre o surgimento da doutrina trinitária na igreja primitiva, enfocando o papel desempenhado pela exegese prosopológica no desenvolvimento desta doutrina. Na exegese prosopológica, uma estratégia de leitura atestada já no século II A.E.C. e empregada pelos autores do primeiro século E.C., como vistos em Filo e Paulo, os falantes enigmáticos anônimos dos textos antigos são conhecidos através da identificação dos falantes por meio de um intérprete do texto. Bates observa esta prática interpretativa nos escritores do Novo Testamento na interpretação do Antigo Testamento, especialmente nos Salmos, bem como na interpretação cristã pós-apostólica da Bíblia. De acordo com Bates, este método exegético de solução por pessoa explica melhor o surgimento do conceito trinitário de pessoa na igreja primitiva e, também, explica melhor o desenvolvimento do ensino do credo na Trindade e na Cristologia do que os demais concorrentes no desenvolvimento da doutrina, incluindo aqueles que tentam rastrear essas doutrinas nos encontros com o Jesus histórico, com a helenização do cristianismo primitivo ou com as possibilidades latentes nas várias formas de monoteísmo judaico. Bates procura confirmar a sua tese traçando a maneira de como os cristãos primitivos interpretavam os diálogos entre as pessoas da Trindade nos vários textos do Antigo Testamento, seguindo o arco de um enredo teodramático da geração eterna do Filho pelo Pai, através da sua missão encarnada e da sua crucificação, para a sua glória na salvação divina e na exaltação à destra do Pai. Ao interpretar os textos do Antigo Testamento seguindo esta linha de trama teodramática, Bates se baseia no seu livro anterior de hermenêutica paulina, no qual ele argumenta que o uso de Paulo do Antigo Testamento é governado por uma regra de fé cristológica.

Ambos os livros têm muito a se elogiar. A obra de Hill, e os frutos revisados ​​da sua tese de doutorado escrita sob a supervisão de Francis Watson na Universidade de Durham, traz as marcas características da Escola Durham de interpretação bíblica: cuida da forma distintiva do discurso bíblico dentro do seu ambiente histórico, social e literário, recusando domesticar os textos dentro de metanarrativas excessivamente esquematizadas no judaísmo do Segundo Templo ou no pensamento greco-romano, familiarizando-se profunda e livremente  com relações em metodologias e discussões críticas contemporâneas visando interagir e se apropriar da história da interpretação bíblica para além da mera era moderna. O estudo de Bates também é um trabalho de sofisticação hermenêutica, embora, em sua natureza exploratória, necessariamente deixe em aberto algumas questões concernentes sobre como a teologia e a exegese podem e devem se apropriar da exegese prosopológica (veja, porém, as teses [do autor] sobre a validade da interpretação teodramática cristã primitiva”, pp.190-202). Ambas as obras, além disso, demonstram como as recentes abordagens da cristologia do Novo Testamento podem progredir recuperando conceitos tradicionais de relação e de abordagens centradas na pessoa à interpretação bíblica.

Bates e Hill deixam de abordar questões metafísicas relacionadas ao discurso bíblico sobre Deus. Hill nota a presença da metafísica proposicional no corpus paulino, mas não explora o que tal linguagem indica sobre a concepção de Paulo acerca das relações entre Deus, Cristo e o Espírito, ou entre as Três Pessoas e a criação. Seria interessante ver como essa linguagem, assim como outros padrões de discurso metafísico na literatura paulina, coordenam, por exemplo, a distinção entre as relações que são internas e externas à Trindade, uma distinção central daquilo que se tornou consenso na teologia trinitária pró-Niceia. Da mesma forma, no caso da proposta de Bates, seria instrutivo considerar como a exegese prosopológica se relaciona com os demais padrões bíblicos de identificação das pessoas da Trindade e, em particular, na relação entre o registro principalmente conversacional e, portanto, interpessoal, da exegese prosopológica juntamente com o registro psicológico/agencial e, portanto, centrado no sujeito, o qual aplica a linguagem da sabedoria, da mente, do espírito e assim por diante a Deus, Cristo e o Espírito.

Além destas poucas exceções, o consenso geral da teologia cristã é de que a doutrina da Trindade é uma doutrina revelada  uma doutrina que não saberíamos à parte da autorrevelação de Deus em Jesus Cristo pelo Espírito através das Escrituras proféticas e apostólicas. Assim, claro, uma coisa é confessar que a Trindade é uma doutrina revelada e outra bem diferente é compreender como ela se faz revelada. Com as contribuições de Bates e Hill em mão, a teologia cristã é mais bem equipada para compreender a forma da revelação trinitária e, assim, prosseguir na tarefa construtiva da teologia trinitária.

Scott R. Swain
Reformed Theological Seminary


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Extraído de:
International Journal of Systematic Theology. Vol.19, Nº 1. Janeiro de 2017.
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ijst.12198/pdf

Traduzido por: Dione Cândido Jr.

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