A CONSISTÊNCIA SISTEMÁTICA DA VERDADE
 EDWARD J. CARNELL

Em resumo, a consistência sistemática perfeita é uma correspondência perfeita com a mente de Deus. Tendo isso em mente, estamos prontos para concluir o nosso estudo da verdade[1].

Deus e a verdade

As palavras são apenas sinais arbitrários de significado que nós pretendemos transmitir quando falamos ou escrevemos. Quando nós queremos descrever o que significa alguma coisa, lhe damos um nome, como “cachorro”, “árvore” ou “ovo”. O valor de um nome reside unicamente na sua habilidade em comunicar significado. Se o termo “Pare!” não transmite o conceito “provoque a imobilização do seu veículo” para aqueles que se aproximam de um cruzamento perigoso, ele é inútil como um sinal e soa como qualquer outra palavra escrita em uma língua estrangeira. A concordância de palavras, contudo, não é de forma alguma um certo sinal de que há concordância de significado. O modernista, por exemplo, usa o termo “Cristo” e com isso pretende se referir aqueles ideais que ele considera ter mais haver com Deus. O conservador usa o mesmo termo e com isso quer se referir à Segunda Pessoa da Trindade ontológica. O significado dos termos é descoberto por definição.

Definições estabelecem os limites para o que nós significamos pelos termos. É o meio que devemos empregar se quisermos que os outros saibam o que está por de trás das palavras que estamos usando. Nós não podemos saber o que o julgamento de um homem é até que saibamos como ele está usando seus próprios termos. Contudo, é o significado das palavras, e não as próprias palavras, que é capaz ser verdadeiro ou falso.

Dizemos que quanto mais perfeita é uma mente, mais perfeito será o significado que essa mente dê em qualquer ato ou julgamento. A mãe é mais perfeita que seu filho, e o perito é mais perfeito que a mãe (a menos que a mãe também seja um perito). Quando levamos isso adiante, que mente é o receptáculo mais perfeito de todos os significados? Não há outra alternativa. É a mente de Deus, pois tal é a sua mente que nada maior pode ser concebido. Deus, então, é a verdade, pois sendo perfeito, ele não pode errar. O significado que Deus dá às coisas é absoluto, pois Deus é o Autor das coisas. Assim, a verdade é a correspondência com a mente de Deus. O teste para a verdade é a consistência sistemática, pois Deus é consistente e o mundo que ele teleologicamente ordenou fornece sistema à essa consistência. À medida que unimos a validade com a experiência, temos um teste perfeito para a verdade.

A Bíblia e a verdade

Deus não apenas revela sua consistência sistemática no fato, mas ele também se comprometeu a escrever esta parte do significado da realidade que o homem deve ter em mente se quiser se ajustar a Deus harmoniosamente e desfrutar da vida eterna. A Bíblia foi dada como uma cura para a angústia da alma. Ela nos diz como o homem pode ser reconciliado com Deus. A Bíblia foi escrita para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:31). Entretanto, ao contrário de algumas hipóteses, a Bíblia não é meramente um relato de experiências religiosas de homens em determinadas épocas. Em vez disso, ela é a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto, mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” (Romanos 16:25-26). Uma vez que a Bíblia contém um sistema de significado que é sistematicamente consistente, ela é um reflexo da mente de Cristo. Conhecendo este corpus de revelação, através do testemunho do Espírito Santo em nossos corações, podemos dizer com Paulo, “nós temos a mente de Cristo” (1 Coríntios 2:16). A mente de Cristo é a verdade; nós a vemos na revelação de Deus por palavra e fato. A angústia da alma é curada ao ver e abraçar esta verdade. Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32)

As criaturas e a verdade

Porque Cristo é a verdade (João 14:6), ele é a fonte de toda racionalidade. Ele é a luz verdadeira, que ilumina (concede uma natureza racional) a todo o homem que vem ao mundo” (João 1:9). A habilidade em pensar os pensamentos de Deus após ele é o que fornece o ponto unívoco de encontro entre Deus e o homem.

É o ministério do Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Trindade, aplicar a verdade aos nossos corações. Assim como Cristo falou somente das coisas do Pai, assim também o Espírito Santo nos fala somente das coisas do Filho (João 16:13). À medida que somos trazidos para consistência sistemática, estamos sendo guiados pelo Espírito de Deus, pois Deus é a verdade. Esta admissão de que nenhum homem pode conhecer a Deus além da obra do Espírito, entretanto, não nos envolve em misticismo, visto que a obra do Espírito é levada em conjunto com a revelação de Deus por palavra e fato. A palavra é o instrumento pelo qual o Senhor dispensa aos crentes a iluminação de seu Espírito[2], até mesmo os fatos da natureza são instrumentos pelos quais o Senhor dispensa aos homens a iluminação da glória de Deus e o significado da história. A obra do Espírito Santo é assegurar uma resposta adequada às evidências, e não criar evidências.

Conclusão

Antes de deixarmos o problema da verdade, façamos referência a uma prerrogativa na qual, se adotada, nos fornecerá consistência sistemática: Uma proposição é verdadeira quando ela pode ser sistematicamente relacionada com toda a nossa experiência. Esta amplitude de implicações alivia o cristão do ceticismo do positivismo, no qual


... grande parte da filosofia, da religião e da ciência seriam imediatamente abandonadas como insignificantes, uma vez que conceitos tais como o de Deus no sentido tradicional, de realidade em oposição à aparência, de um bem último, de outro lado da lua, de elétrons e prótons, de universo físico, geralmente fora do alcance do telescópio de 200 polegadas, inquestionavelmente reivindicam uma referência além dos limites de minha própria experiência, seja no futuro ou no presente [3]

O cristão, pela consistência sistemática, tem o privilégio de não apenas falar sobre outro lado da lua ou de um bem absoluto, mas também da criação, do dilúvio, dos anjos, do Céu e do Inferno. O significado disso aparecerá em breve.



Notas:
[1] Este texto contêm apenas uma parte (a conclusão) do estudo de Edward John Carnell sobre o dito “problema da verdade” [N.T].
[2] João Calvino, Institutes, I, 9, 3.
[3] Blanshard, The Nature of Thought, I, p.375. Para uma refutação muito boa das limitações do positivismo como uma teoria do conhecimento, veja o capítulo de Hall sobre metafísica em Twentieth Century Philosophy (Rumes, ed.), pp.145-194.


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Extraído de:
CARNELL, Edward J. An Introduction to Christian Apologetics. Grand Rapids, Michigan: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1950, p.62-64.

Traduzido por: Dione Cândido Jr.

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